Opinião: Perfumes na Vitrina: A faculdade que pregava pedagogia e praticava sermão
Durante décadas, a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra foi considerada o berço da pedagogia em Portugal. Ali se ministrava o único curso de Ciências Pedagógicas do país, com nomes de referência internacional como Émile Planchard a liderar o pensamento educativo. E, no entanto, o paradoxo era gritante: vendia-se pedagogia moderna, mas praticava-se o sermão medieval.
A Escola Nova, os métodos ativos, a centralidade na criança – tudo isso era estudado, citado, reverenciado. Mas não vivido. A universidade funcionava como um armazém de perfumes caros: exibia-os com orgulho, mas não os usava. O ensino cheirava a mofo, não a mudança. Continuava preso à cátedra, à voz única do professor, à ausência de diálogo. A pedagogia, ciência da escuta e da construção conjunta, era reduzida a retórica.
O problema não era apenas académico. Era estrutural. A burocracia escolar, com os seus concursos, programas rígidos e exames uniformes, tornou-se o antídoto perfeito contra qualquer tentativa de inovação pedagógica. O ensino passou a ser uma corrida de obstáculos onde o sucesso dependia mais da memorização e da obediência do que da curiosidade ou da criatividade.
E o que dizer da formação de professores? Houve tempos em que se investia na qualificação docente, em Portugal e no estrangeiro. Cursos em Besançon, Louvain-la-Neuve, Sèvres – especialmente como meio de expansão das línguas estrangeiras, sem encargos para os docentes. Hoje, essa memória parece uma peça de museu: polida, mas esquecida.
A Faculdade de Letras de Coimbra, que poderia ter sido um laboratório vivo de práticas educativas transformadoras, escolheu o caminho mais fácil: perpetuar o modelo do sermão. E assim contaminou os liceus e escolas para onde enviou os seus diplomados. Ao contrário do ensino primário, sob outra tutela, mais próximo da criança e da realidade. A universidade ficou à margem da mudança.
Hoje fala-se em equidade, diversidade, inclusão. São palavras bonitas, bandeiras modernas. Mas, como no passado, correm o risco de ser apenas isso: palavras. A universidade precisa de mais do que discursos. Precisa de coragem para usar os perfumes que há muito guarda nas vitrinas.
Apesar das críticas ao passado, é justo reconhecer que os tempos mudaram – e com eles, muitos docentes. A Reitoria da Universidade de Coimbra tem assumido publicamente o compromisso com uma mudança de paradigma, promovendo práticas pedagógicas mais inclusivas, colaborativas e centradas no estudante. A metodologia da investigação científica, praticamente ausente na segunda metade do século XX, pelo menos nas ciências sociais, tornou-se hoje um pilar da formação académica, abrindo espaço para a reflexão crítica, a interdisciplinaridade e a renovação curricular.
Muitos professores têm abraçado esta transformação com coragem e criatividade, reinventando o seu papel e contribuindo para uma universidade mais aberta, mais justa e mais viva. A cultura da cátedra resiste. Mas já não reina. Há quem tenha aberto os frascos, deixado o aroma da mudança espalhar-se pelas salas. Será suficiente para perfumar toda a casa?
