Opinião: A metáfora do funil e o currículo oculto
Em 1971, Ivan Illich, educador austríaco, abanou o mundo da educação com um livro que intitulou ‘Sociedade sem Escolas’. Argumentava que as escolas não educam, impõem um clima de obediência e de conformismo, contrariam a iniciativa e o espírito crítico e perpetuam as desigualdades sociais. Abanou mas não abalou porque não concebemos o mundo sem escolas. Mas fez e faz pensar.
Trump não é um democrata que governe a pensar na saúde e bem estar das populações. Pensa apenas no poder do dinheiro, transformando o Estado numa máquina de enriquecimento pessoal. É a glória do dinheiro que lhe dá poder e arrasta o povo para uma ilusão contagiosa do sonho do enriquecimento. Com Trump poderemos ser ricos.
Na sua última campanha eleitoral anunciou que iria dissolver o Departamento da Educação. Porquê? Porque é um desperdício e porque foi dominado pelos liberais que impõem a sua ideologia às escolas. Duas feridas abertas, não apenas nos EUA, mas em muitos outros países, incluindo o nosso.
Os países que apostaram na autonomia real das escolas, como os do norte da Europa, o aparelho administrativo central é mínimo, duas ou três dezenas de pessoas. Onde a autonomia é mínima ou apenas retórica, o gigantismo da máquina administrativa e burocrática da educação absorve e emprega milhares e milhares de profissionais, a maioria professores. Uma grande parte do orçamento da Educação é puro desperdício. A administração central e regional do ME, em Portugal, na transição do milénio, ultrapassava os dez mil profissionais, uma grande parte docentes retirados às escolas. Há outras vertentes do desperdício. Os sindicatos e o programa PIPSE absorveram cerca de 2000 professores destacados para funções legítimas, mas causaram problemas maiores pela sua ausência nas escolas. Os valores globais atuais sobre a administração pública apontam para mais de 20% na educação.
A questão da ideologia invocada por Trump vai no sentido oposto à nossa visão política, o que não impede a nossa Administração da Educação, ao longo dos tempos, de funcionar num registo anti-democrático, que não confia nas escolas nem nos seus profissionais, impondo medidas altamente lesivas dos direitos dos professores e dos alunos. As sucessivas e intermináveis greves, muitas vezes com maior pressão político-partidária do que educacional, falam por si. Quanto aos alunos, são vítimas de um currículo oculto que os condena a níveis de insucesso e de exclusão intoleráveis e ilegais à face da lei. A escolaridade é obrigatória, todos têm direito à educação. Os níveis de exclusão não são apenas o resultado da falta de eficácia da escola, são também o resultado de uma política orientada para a seleção, como se os alunos menos dotados ou com limitações e deficiências de vária ordem não estivessem protegidos pela lei.
Os exames e as provas a que os alunos são submetidos são o currículo oculto que abre portas para reprovar e excluir aqueles que a escola não soube educar nem orientar. A escola exclui os mais frágeis, os que mais precisam de apoio e orientação. Ignora as diferenças dos alunos e obriga todos a passar pelo mesmo funil como se todos fossem iguais. Pedro Cunha, Secretário de Estado no Ministério da Educação de Roberto Carneiro ( 1987-1991 ), foi porventura, até hoje, o governante português mais sensível aos problemas da exclusão e recorreu à metáfora do funil para mostrar que a escola tinha um funil único e estreito para a maior diversidade de crianças e jovens, ignorando as desigualdades em vez de as corrigir, e ignorando as particularidades de cada um. Pedro Cunha retoma o problema da “indiferença às diferenças”, expressão usada por Pierre Bourdieu e pelo seu discípulo François aDubet. Bourdieu critica o modelo de igualdade que não leva em conta as desigualdades sociais e culturais dos alunos. Tratar todos como iguais aumenta as desigualdades em vez de as eliminar.
O Conselho Nacional de Educação parece muito dividido nesta questão, sendo forte o peso dos que defendem exames e provas globais uniformes, com as implicações que tem ao nível do currículo uniforme e das práticas de aprendizagem condicionadas a modelos de avaliação que ignoram as desigualdades e impõem o funil de formato e tamanho únicos.
A avaliação é fundamental na regulação das aprendizagens e é incompatível com provas e exames uniformes quando a inclusão é a bússola que nos orienta.
Alternativas? Uma plataforma como a do SNS que acolha e organize todas as produções e trabalhos dos alunos: síntese e análise crítica de textos lidos, resumos, planos, mapas, resultados de investigações, programas, desenhos, descrições, narrativas, crónicas, estudos temáticos de interesse pessoal, etc. O site do aluno deve ser o seu retrato, o seu percurso, a sua carta de êxitos e desafios. Testes e exames para quê?
A escola continua a ser a melhor via para a formação e integração das pessoas. No meu tempo de escola primária todos tinham de escrever com a mão direita, mesmo os esquerdinos ou sinistristas biológicos. Era a violência da ignorância. Hoje somos um pouco menos ignorantes mas continuamos a impor que façam o que a natureza os impediu de fazer. O currículo oculto obriga todas as crianças e jovens a passar pelo mesmo funil. O pior é que a ignorância continua a reinar mesmo aos mais elevados níveis académicos e políticos. “Acordai Homens que dormis…Acordai dos silêncios vis”. Se fosse hoje, Lopes Graça teria dito Homens e Mulheres. A culpa não morreu solteira.
