Opinião – Sobre coisas realmente importantes
Tive o privilégio de assistir no Centro Cultural de Belém a “Adilson uma Ópera de Dino D’Santiago”. Sim, o privilégio, porque as artes ampliam a empatia, o senso crítico, o entendimento do mundo e a tolerância. Esta obra sublime do genial Dino é mais do que um acontecimento cultural de relevo. É, sobretudo, um gesto político, social e humano que desafia Portugal a olhar para si mesmo através do espelho da experiência migrante.
O espetáculo parte da biografia – infelizmente bem real de Adilson! – e da memória coletiva de comunidades africanas em Portugal para construir uma narrativa universal sobre pertença, exclusão e esperança. Ao transformar em ópera — ainda que moderna e “sui generis” – a história de um jovem negro nascido de pais imigrantes, Dino D’Santiago subverte convenções e reposiciona a cultura afro-lusófona no centro do palco nacional. Uma vez mais!
A obra chega num momento crucial. Portugal vive uma transformação demográfica intensa, com a imigração a desempenhar um papel determinante na economia, na vitalidade social e na diversidade cultural. Contudo, o discurso público continua marcado por estigmas, preconceitos e pela dificuldade em reconhecer os imigrantes não apenas como força de trabalho, mas como cidadãos de pleno direito, com voz e identidade próprias.
Adilson faz aquilo que o debate político tantas vezes evita: olhar para dentro e perceber entropias, erros e desumanidade. Adilson convoca-nos para celebrar a integração dos migrantes como elemento de reforço e valorização da identidade portuguesa.
Adilson é uma convocatória ao diálogo entre gerações e comunidades, uma oportunidade para que Portugal repense a sua narrativa histórica — da colonização à integração — e encontre, na arte, a coragem de assumir a imigração não como ameaça, mas como riqueza.
No CCB, o público não assiste apenas a uma ópera. É chamado a refletir sobre o país que somos e o país que queremos ser. Coisas realmente importantes, portanto! Obrigado, Dino!
