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Opinião-SNS: Regressar ao Futuro já! (VIII) – Novo Estatuto do SNS

17 de novembro de 2021 às 12 h11

Até ao novo Governo tomar posse, vamos enfrentar pelo menos sete meses sem Orçamento de Estado (OE). Estava previsto para o próximo ano, uma dotação de despesa total consolidada de 13.578 milhões de euros, 7,8% acima da execução estimada até ao final deste ano. Seria o maior reforço de verbas na Saúde nos últimos anos, traduzindo-se em mais dinheiro para a despesa com os recursos humanos ( 5.233,8 milhões de euros) ou para a aquisição de bens e serviços ( 7.064,6 milhões de euros).
Todavia, sabemos que não chega o dinheiro. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) necessita urgentemente de um plano reformista para resultar num melhor funcionamento em rede do SNS. É fundamental que todos percebam: há muitíssimo a fazer, mesmo sem OE. A execução do PRR não pode ficar suspensa. Portugal já está atrasado e não pode atrasar-se ainda mais.
Mas, há mais, este é o tempo de se discutir publicamente o projeto do novo Estatuto do SNS para depois ser publicado.
Apesar da necessidade de se aprofundarem e clarificarem algumas matérias essenciais, identificam-se sete potenciais inovações:
1.Publicar um Estatuto que responda à atual Lei de Bases da Saúde, onde a organização administrativa do SNS é regulada como um todo integrado reduzindo a possibilidade de vácuos legislativos que contribuam para instabilidade e desarticulação.
2.A direção executiva do SNS para a “coordenação da resposta assistencial das unidades da saúde do SNS” e “assegurar o funcionamento em rede do SNS” pode ser uma oportunidade para se melhorar a integração de cuidados e o trajeto do doente no SNS, todavia não é clara a forma de articulação com a ACSS, Direção-Geral da Saúde, Coordenadores Nacionais de Programas de Saúde (Saúde Mental, Cuidados Continuados e Paliativos) e com as Administrações Regionais de Saúde (ARS), nem quais os poderes e competências de cada um destes organismos ou Coordenadores deixam de ter ou passam a ter!. Por falar em ARS, que hoje servem basicamente para gerir os Agrupamentos de Centro de Saúde (ACeS), numa gestão hierárquica distante dos Centro de Saúde, é a oportunidade de se discutir a possibilidade de reestruturar as ARS com as respetivas funções a serem absorvidas por outras entidades, incluindo a necessária autonomia financeira contratualizada dos ACeS e articulando-se com o processo de alargamento das competências das CCDR.
3.A constituição de sistemas locais de saúde é bem-vinda, desde que seja assegurada a recuperação de aprendizagens de trabalho colaborativo em rede e se impulsione as Redes Sociais Locais, incluindo o poder local autárquico para combater a pobreza, dar resposta integrada às pessoas mais vulneráveis (idosos, pessoas com deficiência ou famílias monoparentais) e atividades de prevenção.
4.Um vogal não executivo eleito pelas comissões de trabalhadores para a gestão de um conjunto de instituições hospitalares do SNS é positivo. Não esquecer de alargar essa medida também aos ACeS.
5.A recuperação da autonomia para contratação de trabalhadores por parte das entidades do SNS para procederem à substituição de profissionais de saúde: excelente proposta que para além dos hospitais, abrange as entidades do setor público administrativo o que é uma boa novidade.
6.Redimensionamento dos atuais mega ACeS: essa possibilidade é desejável que aconteça. Deve-se por isso, reorganizar os ACeS com limites populacionais– mínimo de 50 000 habitantes em áreas de grande dispersão geográfica e de 100 000 nas áreas urbanas com implementação da devida autonomia financeira contratualizada e não a mera atribuição da competência para autorização de despesa conferida ao diretor executivo dos ACeS, competência essa que já existe!
7.Criação do regime de dedicação plena: urge acelerar a opção por esse regime de trabalho associado à reinvenção das carreiras profissionais. Não pode por isso, ser definido individualmente como “não obrigatório”, deve sim, estar associado ao objetivo de cada serviço/departamento atingir a meta de pelos menos dois terços dos profissionais estarem nesse regime retributivo misto com incentivos coletivos.
Aprofundemos a discussão e melhoremos a proposta de Estatuto do SNS.

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