Opinião: “Portugal Antifrágil” …
Em O Cisne Negro, Nassim Taleb já havia demonstrado que acontecimentos improváveis e imprevisíveis são um denominador comum — e muitas vezes dominador — das nossas existências. Esses eventos, apesar de raros, têm o poder de moldar o mundo, de forma profunda ainda que inesperada. O conceito ecoa fortemente nos dias atuais, em que o planeta se vê envolto numa corrida desenfreada rumo aos cerca de onze mil Datacenters espalhados pelo globo.
Estas fábricas de informação e oráculos da inteligência digitalizada tornaram-se a espinha dorsal de uma sociedade cada vez mais dependente de dados e que gera ao mesmo tempo atmosferas de risco politico, economico, social, tecnologico, ecológico e legal.
Na província de Aragão, em Espanha — próxima do local onde se iniciou o famoso Apagão Ibérico de energia — assiste-se a um confronto silencioso entre os grandes players da inteligência artificial pela ocupação de territórios estratégicos para a colocação de mais três Datacenters. Terra, água e energia são cada vez mais disputados, colocando zonas frágeis à beira de um colapso ecológico. Se as decisões forem guiadas apenas por interesses políticos, sem o escrutínio rigoroso das ciências da engenharia e da gestão de risco, o resultado pode vir a ser ainda mais problemático.
O crescimento e desenvolvimento global assentam hoje na produção, distribuição e consumo de informações — e também de desinformações. Este novo paradigma cria ambientes voláteis, incertos, complexos e ambíguos, cujos efeitos são difíceis de prever ou calcular. Exige, portanto, uma vigilância permanente e em tempo real sobre os ecossistemas naturais e artificiais que sustentam a nossa civilização de ganhos pontuais a partir de situações onde risco e conflito se entrelaçam como causa e consequência mútuas, e, evoluem numa espiral de incerteza permanente.
Em Antifrágil, Taleb propõe uma reviravolta no modo como encaramos a incerteza. Longe de ser uma simples apologia do caos, Taleb explora a ideia de que certos sistemas não apenas resistem à turbulência mas … melhoram com ela. O antifrágil vai além do resiliente: enquanto este resiste ao choque e permanece intacto, no mesmo, o antifrágil absorve o impacto e evolui a partir dele.
Provocadora e transformadora é a proposta de Taleb na tentativa de postular que um mundo antifrágil não é apenas um ideal utópico, mas uma necessidade urgente.
Em um raciocínio estratégico para a criação de um cérebro lusitano coletivo, alinhado com o espírito do tempo (zeitgeist), a busca incesssante por um “Portugal Antifrágil” poderá tornar-se uma meta possível — e necessária — até antes de ser desejável.
