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Opinião: O papel das claques no futebol e na política

14 de dezembro de 2024 às 12 h05

Nas últimas décadas, as claques de futebol, originalmente concebidas como grupos organizados de apoiantes que iam aos jogos do seu clube favorito apenas para o apoiarem, para conviverem e para se divertirem, transformaram-se em fatores de preocupação e de sobressalto público. As ligadas às agremiações mais populares e antigas são geralmente as mais perigosas, pois não só são maiores como incorporam modos de cultura tribal, associados a práticas, símbolos e padrões de discurso que lhes são próprios, agora claramente pautados pela violência. Legalizadas ou não, nelas se afirmam cada vez mais, a par daquela dimensão lúdica e festiva, formas de coação sobre outros, além de processos orgânicos que têm transformado algumas, ou pelo menos os seus setores “ultras”, em instrumentos do crime organizado.
A palavra claque remete, na origem, para um termo, usado em França a partir do início do século XIX, que designava uma equipe de profissionais organizada para bater palmas (“claquer”) em espetáculos de teatro e de ópera. Por volta de 1820, em Paris, até existiam já pequenas empresas que tratavam de recrutar pessoas para esse efeito. Mais de um século depois, com o surgimento e a expansão da televisão, o termo passou também a designar os grupos de cidadãos contratados para aplaudir ou para rir durante programas populares realizados perante um auditório. Entretanto, este hábito foi ampliado, passando a incluir também grupos de pessoas – sejam elas militantes, apoiantes, fãs ou simples contratados – organizadas para levar a cabo essa atividade em comícios ou debates.
Todavia, conforme aplaudiam, as claques também pateavam. Isto é, exprimiam ruidosamente o seu descontentamento perante um evento, uma ideia, um argumento, um autor ou uma prestação considerada desadequada e que se procurava desacreditar. Esta função do apupo, passara, entretanto, a ser prática comum de tais grupos, se bem que neles possa ser ténue a fronteira que separa a livre expressão coletiva de uma opinião crítica de iniciativas que têm mais a ver com a intimidação e o insulto. Daí, aliás, a sua transposição para práticas associadas à vida política, bem visíveis quando a intervenção da argumentação é inteiramente substituída pelo grito, pela pateada ou pelo aviltamento, por vezes personalizado, de quem se procura contestar e denegrir.
Esta prática foi comum naqueles “tempos sombrios”, dos quais falou Arendt, que assistiram, nas décadas que precederam e acompanharam a Segunda Guerra Mundial, à iniciativa de partidos e movimentos defensores de ideologias totalitárias, em particular os de teor fascista, empenhados em impor uma verdade única e em calar a voz de quem se lhes opunha. Algo a que, neste momento, com a expansão da extrema-direita populista, estamos de novo a assistir. Em Portugal, basta ver como se têm comportado em lugares públicos, incluindo a Assembleia da República, pessoas associadas ao partido Chega. Práticas análogas ocorrem também com franjas radicalizadas da corrente “woke”, que agem em grupo essencialmente pela via da calúnia e do ódio, jamais do argumento e do respeito por quem não pensa da mesma exata maneira.
Como ocorre com as piores claques de futebol, estes grupos procuram impor-se pela arruaça, pela injúria ou pelo ataque pessoal, lançados sobre quem quer que se lhes oponha ou sobre quem os não acompanhe nos seus interesses, convicções e objetivos. Em democracia, seja em nome da liberdade, do Estado de direito ou da mais elementar convivência, estas atitudes de modo algum podem ser toleradas e precisam ser combatidas com a maior atenção e firmeza.

2 Comentários

  1. O Carbonário diz:

    Um artigo muito interessante, que foi estragado pela palavra “woke”. Esta palavra é muito utilizada pela extrema-direita para denegrir todos os movimentos que lutam pelos direitos das pessoas LGBT e pela igualdade de género, e eis que o Prof. Rui Bebiano, que eu sempre tenho associado ao combate contra os extremismos, acaba por cair na tentação de adoptar. É preocupante. Sinceramente, nem se sabe bem o que é isso da “cultura woke”. Nem se sabe bem qual é a sua definição. Uma pessoa na posição do Prof. Rui Bebiano deveria ter mais cuidado com o emprego de termos vagos tais como “woke”. Onde está o movimento ou partido “woke”? Existe mesmo este movimento? Há algum movimento unido em torno de uma ideologia bem definida que se possa identificar como “woke”? Há alguém que se identifique e declare como “woke”? Ou “woke” é apenas mais um daqueles “monstros” inventados pela extrema-direita no geral para colocar o povo em sobressalto no medo de que venha aí uma horda de bárbaros obrigá-lo a mudar de sexo? Antes eram os judeus, agora são os “woke”. É pena que o Prof. Rui Bebiano se tenha deixado influenciar pelo linguajar do Chega (ver abaixo), partido que tanto critica. O momento exige um maior sentido de responsabilidade por parte dos nossos intelectuais.

    https://www.facebook.com/watch/?v=524774126753931

    Há extremistas em todos os quadrantes políticos, e há quem defenda de forma mentalmente e democraticamente pouco saudável esta ou aquela ideia – e devem ser combatidos! Mas daí a poder-se reunir todas as pessoas que defendem ideias de forma irracional numa espécie de movimento organizado com carimbo “woke” vai uma grande distância. Isso é fazer a vontade à extrema-direita.

  2. Joana Pimenta diz:

    Carbonário! Voltaste, caramba! Já te julgava extinto com o novo advento da direita musculada e tudo mais. 🙂

    Eu para o crossfit preciso da direita e da esquerda, se não fico com uma assimetria na massa muscular tanto dos membros inferiores, quer superiores. Já que no diz respeito à massa cinzenta, têm-me dado mais treino o que diz e escreve a esquerda férrea, assim como tu, às vezes. 🙂

    Os woke parece que existem e por referência aos anti-woke. Se os anti-woke matam patos raros nas reservas naturais de Veneza, os woke defendem o direito à vida desses patos. É tudo uma questão de referência e de denotação. Este woke em particular(tu, Carbonário, que és tanto quanto sou Joana Pimenta) e woke, definição de, com um conjunto de propriedades abstractas. A coisa aqui complica-se mais um pouco porque precisas de um outro referente, o de anti-woke. Com o exemplo dos patos de Veneza fica tudo um pouco mais claro, vais ver. Aqui vai:

    https://edition.cnn.com/2025/02/05/travel/video/donald-trump-junior-accused-of-shooting-rare-duck-italy-digvid

    https://fieldethos.com/

    Cumprimentos,

    Joana Pimenta

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