Opinião: Lembrando os esquecidos
A juventude universitária de Coimbra sempre se caracterizou pela irreverência, mas também pela coragem com que luta pelos seus ideais. Algumas vezes pegando em armas, constituindo batalhões académicos, como sucedeu em 1645 face à ameaça castelhana à nossa independência, ou no séc. XIX, resistindo às invasões francesas e a movimentos absolutistas.
Mais recentemente, já no séc. XX, as armas deram lugar às palavras e às acções de reivindicação e protesto, com algumas lutas académicas na primeira metade do século, e outras que assumiram maior expressão nos anos 60 – designadamente em 1962, em 1965 e em 1969.
Não vou descrever o que sucedeu a 17 de Abril de 1969 (com Alberto Martins a pedir a palavra ao então Presidente Américo Tomás) pois é facto bem conhecido.
Vou referir antes as consequências do gesto corajoso dos estudantes que se atreveram a enfrentar o regime autoritário que então governava o País.
Para além do Presidente da AAC, dezenas de outros dirigentes estudantis foram presos, interrogados, julgados em processos sumários. Tiveram de interromper os seus cursos porque foram incorporados nas Forças Armadas.
Estamos a falar de jovens que, apesar da censura, tinham formação e consciência política, bebida em obras proibidas, em jornais clandestinos e estações de rádio que emitiam desde outros países (como a BBC, de Londres, a Voz da Liberdade, de Argel, a Rádio Moscovo). Também jovens das colónias a estudar em Coimbra, ligados aos movimentos que lutavam pela independência, foram sensibilizando colegas.
Influências traziam ainda ventos que sopravam de fora, designadamente de França, onde cerca de um ano antes, em Maio de 1968, movimentos estudantis deram origem a uma revolução política e de mentalidades, utilizando slogans como “É proibido proibir” ou “Sejamos realistas, exijamos o impossível”.
Os estudantes de Coimbra forçados “a ir para a tropa”, foram espalhados por unidades de todo o País e muitos mobilizados depois para as frentes de combate em Angola, Moçambique e Guiné. Nos vários locais para onde foram passando, desenvolveram trabalho de sensibilização de oficiais do quadro permanente, contribuindo para a génese do movimento que levou a cabo o 25 de Abril de 1974.
A “Crise Académica de 1969” foi um exemplo de ousadia nas críticas ao regime e à Guerra Colonial que se travava em três frentes há mais de uma década.
Mas é justo mencionar, para além dos dirigentes estudantis, os que quase sempre são esquecidos.
As dezenas de milhares de estudantes que, nas sucessivas crises académicas, apoiaram os seus líderes, aderiram às greves, participaram nas manifestações, enfrentaram as cargas das polícias.
As raparigas estudantes que, numa época em que as mulheres tinham poucos direitos e fortes restrições sociais, tiveram a coragem de se insurgir, de quebrar tabus e de lutar pela igualdade.
Mas também professores e funcionários da Universidade que se atreveram a apoiar os estudantes, sabendo que corriam o risco de expulsão.
E os que nunca são lembrados: os pais, muitos deles a fazer enormes sacrifícios para que os seus filhos pudessem tirar um curso superior e que, com as greves aos exames, as prisões, o envio dos jovens para a guerra, viam ruir esses sonhos. E ainda assim, foram muitos os que compreenderam e apoiaram os filhos no propósito de construírem um país melhor.
Sem menosprezo pelos protagonistas, cuja ousadia nunca é demais enaltecer, creio que é justo deixar aqui esta singela homenagem aos que raramente são mencionados, mas que foram fundamentais para que as mudanças acontecessem.
Estou certo de que as actuais gerações estudantis, tal como as que hão-de vir, saberão honrar este precioso legado da Academia de Coimbra.
