Opinião: Legislar o telemóvel
Os limites da prisão confrontam-se com os limites da liberdade. Quando punimos restringimos a liberdade. As pessoas que merecem restrições da sua exposição são aquelas que perturbam a paz alheia. Mas este conceito, como todos os outros, é discutível.
Um perturbador pode ser um performer, um tipo que rompe os cânones da indumentária, uma pessoa que desafia as regras da maquilhagem, a que exagera no perfume, a que pela desarrumação invade o espaço alheio. Um idiota pode sentar-se na nossa mesa da esplanada e desatar a fumar. Perturba a fronteira porque nos invade um espaço e nos condiciona um hábito que não temos. Que fazer? Um tipo que constantemente passeia o seu cão, a deixar os pastéis na rua alheia. Nunca se incomoda de levar os “bolinhos com ele”. Suja-nos o sapato. As regras são claras, mas ele não cumpre!
Há inúmeras perturbações que influenciam o espaço dos outros, mas não podemos punir com prisão. Assim surgem as coimas, as multas, as taxas sobre a utilização. Os limites da nossa liberdade, começam na caca do cão, na vozearia por vez da fala. São detalhes que fazem a diferença. A educação teve regras escritas, que se ensinavam em casa e na escola. Não era necessário serem normas, ou regras, eram fios condutores.
As pessoas diferenciavam-se na performance dessas orientações. Hoje este processo de tolerância, encontra no ruído dos telemóveis, nas conversas com pessoas a milhares de quilómetros, na perturbação da paz do cinema, do restaurante, da sala de espera, um ícone noivo.
Ouvem as conversas alto, ouvem os vídeos aos berros, e como não conseguem ter assuntos para conversar, insistem nas anedotas, nas “piadolas”, nas graçolas, nos tic-tocs debruçados sobre os ombros dos amigos. Confesso que não sou fã desta ausência legislativa.
O som para mim, já o afirmei várias vezes, é como o tabaco. Deve haver legislação forte sobre esta fronteira perturbadora do espaço coletivo. Os cidadãos estão a aprender a viver com este novo membro do seu corpo. O telemóvel paga contas, fotografa, tem notícias, permite podcasts, permite sportTv, e por acaso, também telefona. Esta realidade nova transporta-nos para um espaço de novidade. Sendo uma disrupção da liberdade, é carente de uma definição de limite. Hoje o telemóvel provoca absentismo, transporta hábitos de preguiça, destrói a conversa a quatro olhos, perturba o som público.
O outro limite que o telefone permite, é saber a cada instante onde está o seu dono, o que comprou, em que transportes andou, com quem falou, onde foi dormir.
O telefone é pois ele próprio uma prisão, uma disrupção social, apesar de acrescentar liberdade.
