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Opinião: Jon Fosse – Trilogia

12 de outubro de 2024 às 12 h21

Asle e Alida vagueiam exaustos no frio, na chuva e na escuridão pelas ruas de Bjørgvin em busca de um tecto que os abrigue. São dois jovens que caminham apaixonados com uma criança a unir os seus destinos. Ela está grávida. A tensão existe na humanidade feia que os rejeita, que os aponta, que os ostraciza. Assim começa A trilogia de Jon Fosse prémio nobel da literatura em 2023. É um escritor Norueguês, de 65 anos, interessante de ouvir e que se esmera na escrita do Nynorsk, uma variante do Norueguês. Aconselho uma entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=oONG3I5g1M0
A sua escrita é rítmica, utilizando a repetição como reforço das ideias, misturando os tempos dos acontecimentos separados apenas por vírgulas. Estamos ontem, e depois amanhã. Estamos agora e saltamos para muito depois. Igualmente nos espaços, nas cidades. Há uma lógica no encadear de pequenos factos que se tornam histórias ao longo da estória. Traduzido do norueguês por Liliete Martins o livro composto por três novelas — Vigília ( 2007 ), Os Sonhos de Olav ( 2012 ) e Fadiga ( 2014 ) é sobretudo uma novela de amor falhado. A hostilidade que imana da reacção à paixão, o ciúme dos outros e a necessidade de sobreviver de Asle e Alida, e depois da criança que nasce, sustentam os factos e a narração. “Trilogia é uma parábola de inspiração bíblica sobre o amor, o crime, o castigo e a redenção” diz a editora. Fez-me lembrar o escândalo de Saramago com as suas frases longas e de pontuação revolta. Eu sou leitor ávido da época de ouro de Saramago e portanto aconselho a visita a Jon Fosse.
Descreveria o seu modo de redigir num exercício de imitar que me lança agora num conto minimalista, soluçado, que vos deixo para brincarem neste sábado.É uma tentativa minha de saborear Jon Fosse num episódio português:
Montenegro era assim chamado por ter nascido num lago de breu, algures no Gerês num dia em que a noite e o dia se juntaram, e no mesmo dia que em Lisboa nasceu Nuno de pais de Santo, enquanto a penumbra começava a noite. Montenegro disse ao Nuno que gostava de luz mas vivia no breu. Disseste breu, disse Nuno, disse sim respondeu Montenegro, e claridade? Disse Nuno, e penumbra avançou Nuno outra vez. Eu sou do Gerês e não quero a tua luz. Estavam a discutir o prédio do Martim Moniz que queriam construir, e Montenegro preferia o cinza e Nuno queria azul.
Mas se abrimos janelas a parede azul fica melhor e sonhou com Lisboa ao som de Marceneiro nas vielas vizinhas, e prefiro a cor cinza, sem janelas, disse Montenegro, e lá estava o lago, no meio da vegetação verde, a neblina estável, e o prédio deslumbrava rebentando do breu, enquanto os pais de Santo construíam macumbas e engalanaram de festivas gambiarras azuis, que Nuno pendurava agora na janela do Martim Moniz.
Temos de decidir do prédio, disse Nuno. Assim como queres, não consigo, disse Montenegro, que mostrou novos desenhos, agora azul ténue, quase cinzento, a tentar consenso. Não, digo-te que não, preciso de mais luz e Nuno colocou um avental azul e carregou de azul a proposta de Montenegro, e este esburacou-a a fingir janelas, e o Nuno rasgou-as em vidraças gigantes e ficaram a olhar-se. Ainda se olham às vezes, mas vivem em lugares diferentes. O prédio do Martim Moniz é amarelo. O construtor foi o Sr Ventura que o comprou ao Rui Americano.

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