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Opinião: Humanas tristezas

21 de dezembro de 2024 às 12 h57

“Humano” é um adjetivo que qualifica uma atitude. “Humanamente” é sinónimo de bonomia, solidariedade, simpatia, correção. Os humanos deviam ser pois fascinados pelo caminho da equidade, do respeito, da coerência, da civilidade, da tolerância, e teriam de entender como a sua existência faz todo o sentido como uma peça da engrenagem das existências de muitos outros.
Desafortunadamente encontramos criatividade perversa em Dominique Pelicot, ou fascínio criminal pelo poder em Bashar al-Assad, ou ainda ganância ilimitada em Ricardo Salgado. Os humanos possuem uma criatividade ilimitada para o bem e o mal. Nos seus ódios podem ser demoniacamente criativos. No desrespeito podem ser torturadores, estupradores, assassinos. E tudo isto é um processo químico com muito por descobrir. Pode ser até uma construção elétrica de impulsos cheios de desconhecidos. Conhecemos já neurotransmissores como GABA, dopamina, serotonina, a importância de iões de Cálcio, a forma como as sinapses informam negativa ou positivamente, a existência dos impulsos frenadores e ativadores. O problema está em perceber como se gera o pensamento e a criatividade. De onde vem a imaginação? Como se constrói a maldade? Como se coloca no mapa funcional da ressonância o amor? ou a preguiça?
O mais fascinante é termos consciência que os humanos são viciosos, perversos e maus, na mesma proporção em que são adoráveis. A pessoa que amamos constrói percepções e congemina, associa factos, e dessa complexidade de reações neuronais, brota uma decisão. Se fossemos capazes de identificar as decisões trágicas ou presentes num código de más posturas podíamos evitar os crimes e antecipar os ódios. Mas estamos muito longe de o ser.
Temos compulsões que nascem de desejos e de novo da imaginação. O mister do sofrimento vem do desejo e este pode ser infinito como em Paul Getty. A ciência está a muitos anos de perceber a construção da memória, a elaboração de uma ideia, a fineza de uma escolha de palavras.
Humana tristeza é ver como um Dominique Pelicot estupra a sua mulher inconsciente. Que química, ou electrão errado, elabora esta insanidade? O humano é esta infinita complexidade que se traduz em desencontros com as normas, em imprecisões, em desígnios imprevistos, em infinita maldade. E se nos fascina no bem, também acaba por nos atrair na plenitude da maldade, o que provoca a necessidade da exposição dos factos mais negativos. Tabloides no fundo servem uma compulsão. Ainda assim, prefiro a complexidade imaginativa e inquieta dos humanos à simplicidade reverencial de muitos outros animais. Difícil é gostar de quem nos contraria.

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