Opinião: Horários e ritmos de vida
Uma das grandes diferenças que senti entre Portugal e Austrália foi nos horários e ritmos de vida. Aqui, pratica-se o ditado “deitar cedo e cedo erguer” – mesmo nas grandes cidades.
Tive um primeiro sinal que tinha de entender e adaptar-me aos horários e ritmos locais, quando pouco depois de chegar a Sydney saí de casa bem cedo (achava eu, por serem 7h) para ir correr antes do trabalho.
Achei que por ser tão cedo não ia ver ninguém, mas para minha surpresa já havia trânsito, muitas pessoas pela rua a entrar e sair de autocarros, de supermercados, e de cafés – estes com mesas cheias, a espalhar o cheiro a café pela rua, e pessoas amontoadas à espera do seu takeaway. Quando passei num campo de futebol sentia-se o cheiro a relva pisada, pois já estavam as crianças a acabar o treino para chegarem a tempo à escola.
Rapidamente percebi que em Sydney é comum sair de casa às 6/6h30 para ir fazer desporto. Em especial nas muitas praias da cidade, em que a essa hora já podemos ver as pessoas a correr, nadar, fazer surf, ou simplesmente a beber café – tipicamente um latte (leia-se um galão forte com menos leite e mais espuma) em copo de takeaway para acompanhar um passeio junto ao mar.
Em sentido oposto, tudo fecha mais cedo – talvez com excepção de supermercados que estão abertos até às 22h ou 23h. Encontrar um café aberto depois das 15h é difícil, depois das 16h é missão impossível; chegar a um restaurante às 22h só se for para ajudar a limpar o chão e arrumar as cadeiras e as mesa, pois a maioria fecha às 21h e a “hora de ponta” é entre as 18h e 19h30. Faz sentido, já que o telejornal nacional começa às 19h.
Por isso, não é de espantar que um estudo de 2016 (da Universidade de Michigan) tenha concluído que os Australianos eram o povo que em média se deitava mais cedo ( 22h45 ) e levantava mais cedo ( 06h45 ).
Tudo isto se reflete na escola e no trabalho. Como a escola funciona entre as 9h e as 15h, é relativamente comum que um casal com filhos se organize para um dos pais começar a trabalhar às 7h30/8h e sair a tempo de ir buscar os filhos à escola às 15h, e trabalhar de casa mais 1-2h até à hora de jantar (leia-se 18/19h).
Quando os pais não têm essa opção, as crianças ficam na creche ou nos “tempos livres” até às 18h/18h30. E por isso, a partir das 17h30 oferecem-lhes jantar.
São horários e ritmos diferentes, com vantagens e inconvenientes, que acredito virem da perspectiva que “trabalhamos para viver” e não “vivemos para trabalhar”, traduzindo-se em maior respeito pela vida pessoal. Infelizmente esta cultura/mentalidade tem-se vindo a perder, mas tenho confiança que seja temporário. Ou talvez apenas esperança, visto que os estudos mais recentes demonstram que este tipo de “horários e ritmos de vida” trazem benefícios para a nossa saúde e bem estar.

