Opinião: Depois das eleições: novo caminho para a mudança?
As eleições passaram. Deixaram um cenário político marcado por um pequeno terramoto partidário, mas não me cabe aqui explicar, justificar ou especular sobre os porquês. A mensagem do eleitorado foi clara: há um desejo evidente por mudança. As pessoas não querem mais do mesmo. Rejeitam discursos ocos e ações baseadas em ideologias identitárias importadas que, longe de resolverem os seus problemas concretos, alimentam divisões artificiais e um ambiente de cancelamento constante. A verdade é que o país está cansado de debates estéreis e de moralismos “wokistas” que ignoram as dificuldades reais com que os cidadãos se deparam todos os dias.
O povo falou, e a sua escolha traduz uma vontade coletiva de ver os seus problemas tratados com seriedade, competência e realismo. Esses problemas são bem conhecidos: a crise na habitação, os serviços de saúde em rutura, um sistema de ensino que perdeu eficácia e autoridade, transportes públicos ineficientes, preocupações legítimas com a segurança e com as despesas militares num mundo cada vez mais instável. Mas, acima de tudo, dois grandes desafios pairam sobre todos estes: a imigração descontrolada e a estagnação do crescimento económico. Estes não são apenas problemas , são cruzamentos críticos que podem ditar o futuro de Portugal.
Temos, portanto, dois caminhos à nossa frente. O “old way” é conhecido: políticas baseadas na distribuição fácil, numa dependência contínua de um Estado burocrático, omnipresente e ineficiente, que drena recursos em vez de os multiplicar. Um Estado que regula demais e incentiva de menos. Um Estado que promete muito, mas que entrega cada vez menos. Esta via levou-nos à estagnação, à emigração qualificada, ao desânimo e ao conformismo.
Mas há uma “new way” possível. Uma via que reconhece que os problemas que enfrentamos, por mais complexos que sejam, são também oportunidades de mudança estrutural. Uma política económica assente no crescimento sustentável, na inovação, na competitividade e na confiança nos cidadãos e nas empresas. Para trilhar este novo caminho, temos de começar por libertar os motores da economia, nomeadamente as pequenas e médias empresas, que representam o verdadeiro coração da atividade económica nacional.
Já aqui falei várias vezes da importância de reformar o sistema fiscal, em especial o peso do IRC sobre as empresas. As evidências estão aí. Regresso a este tema porque novas evidências são hoje conhecidas. A Fundação Francisco Manuel dos Santos e a SEDES já há muito defendem uma revisão em baixa do IRC com efeitos virtuosos no investimento, na confiança e no crescimento económico.
Agora, o Instituto Mais Liberdade veio mostrar, com dados concretos, que a redução do IRC não é um capricho liberal nem um favor aos patrões. Pelo contrário: é uma alavanca de crescimento. Os países que tiveram a coragem de baixar significativamente as suas taxas de IRC (Irlanda, Polónia, Dinamarca, Bélgica, …) viram a receita fiscal aumentar e o seu PIB crescer. A matemática é simples: menos impostos, mais investimento; mais investimento, mais emprego; mais emprego, mais consumo; mais consumo, mais receita. Este ciclo virtuoso é bem conhecido por quem estuda economia, é amplamente ignorado por quem insiste em soluções estatizantes e de curto prazo.
É importante sublinhar que defender a redução do IRC não é defender menos Estado. É defender um Estado diferente: mais focado, mais ágil, mais eficaz. Um Estado que se concentre em garantir a justiça, a segurança, a educação e a saúde, mas que deixe espaço à sociedade civil e às empresas para inovar, arriscar e crescer. Um Estado que estimule a mobilidade social e económica, em vez de reforçar a dependência crónica. Mas é também um sinal… um sinal de que tudo pode ser diferente, se ousarmos fazer tudo de forma diferente. Eu também sou assalariado, como tantos outros, e sei bem o que custa viver num país onde se trabalha muito para receber pouco, e onde o mérito raramente é recompensado.
Mas também sei que sem crescimento económico, sem criação de riqueza e sem liberdade para empreender, nada muda verdadeiramente. Podemos continuar a discutir quotas, identidades, ofensas e moralismos, ou podemos decidir arregaçar as mangas e enfrentar os problemas de frente. Não há tempo a perder. Portugal precisa de uma nova visão, de uma nova atitude, de uma nova política económica. Precisamos experimentar algo novo porque sabemos que o velho não funciona. Basta de gerir a escassez — é tempo de construir a abundância. A escolha está nas mãos de quem nos governa. Mas a pressão, essa, tem de vir de todos nós. Porque quem vive de ideias feitas, acaba sempre por ser ultrapassado por quem se atreve a pensar diferente.
PS: Eu também me assustei com o “louco” da motosserra: não gosto de figuras histriónicas com alguns toques de radicalismo. Mas vejam os resultados: parece um milagre!
