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Opinião: Da série: eleições em série

05 de maio de 2025 às 08 h47

Nos últimos anos, Portugal tem atravessado uma sequência de eleições que mais parecem episódios de um ciclo interminável de instabilidade do que verdadeiros exercícios democráticos de renovação e progresso.

Com a dissolução da Assembleia da República e a marcação de novas eleições legislativas, voltamos a ser confrontados com um cenário que, sendo democrático na forma, se revela penalizador na substância.

É particularmente triste constatar que os dois últimos actos eleitorais resultaram não de divergências sobre políticas públicas ou estratégias de governação — e muito menos do termo natural dos mandatos —, mas de episódios relacionados com a ética e a seriedade dos protagonistas políticos, o que mina ainda mais a confiança dos cidadãos nas instituições.

É certo que as eleições são um pilar essencial da vida democrática. No entanto, quando se tornam demasiado frequentes — e sobretudo quando resultam de crises políticas recorrentes —, deixam de ser uma solução para se tornarem parte do problema. As decisões estruturais ficam adiadas, os compromissos a médio e longo prazo evaporam-se e instala-se uma lógica de sobrevivência política, onde o foco está no curto prazo e na manutenção do poder.

As sucessivas quedas do governo e a incapacidade de gerar maiorias sólidas têm um custo e um dos mais sentidos é o económico. As empresas, sobretudo as pequenas e médias, enfrentam um ambiente de incerteza crónica que dificulta o planeamento estratégico, o investimento e, consequentemente, a criação de emprego. Ninguém investe com confiança num país onde o horizonte político se redesenha a cada poucos meses. A instabilidade traduz-se em hesitação, em adiamento de decisões e, muitas vezes, em oportunidades perdidas.

Importa também considerar que a mudança de governo implica geralmente a substituição de chefias em organismos públicos fundamentais. Essas alterações geram normalmente atrasos na tomada de decisão, paralisam processos em curso e afectam directamente a competitividade das empresas. O exemplo mais evidente é o atraso na aprovação de candidaturas ao PT2030 — fundos cruciais para o investimento produtivo —, que acabam congelados em virtude de transições políticas que se arrastam por meses. Conseguimos uma proeza única: tornar o lento e burocrático ainda mais lento. Este impacto é particularmente grave em territórios como o nosso, de baixa densidade populacional, onde as armas são desiguais e é essencial aproveitar todas as ferramentas disponíveis para estimular o investimento e combater a desigualdade territorial.

Sinto uma profunda frustração por estarmos a desperdiçar aquele que foi, objectivamente, o mais duradouro ciclo de crescimento económico desde a adesão de Portugal ao Euro. Em vez de concentrarmos a energia colectiva em aproveitar este momento para acelerar reformas estruturais, atrair investimento e corrigir problemas crónicos do país, assistimos a um país paralisado pelo ruído, mais interessado em dissecar a vida pessoal dos políticos do que em discutir políticas públicas. O mais caricato (e preocupante) é que, com raras excepções, são os próprios partidos e políticos que continuam a alimentar diariamente esse tipo de discussão. Esta escolha deliberada de foco revela uma enorme falta de sentido de responsabilidade perante o momento que vivemos. Confesso, por fim, que vejo como positivo o que este governo conseguiu fazer no pouco tempo que teve. Num contexto marcado pela incerteza e pela constante pressão política, fruto da não existência de uma maioria, conseguiu afirmar uma linha de continuidade, preservar a estabilidade institucional e avançar com medidas que, apesar do curto prazo, foram relevantes e merecem reconhecimento. Que neste ciclo eleitoral os partidos se apresentem aos eleitores não apenas com programas eleitorais, mas com propostas de governação estável. Que deixem claro com quem estão dispostos a dialogar, com quem querem construir e como pretendem garantir a estabilidade que o país tanto necessita. Porque, mais do que novas eleições, o que Portugal precisa é de um novo compromisso com o seu próprio futuro. Eleições em série estão longe de garantir esse futuro.

*Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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