Opinão – Não há doentes sem razão
Diogo Cabrita
O sistema de saúde português sofreu uma enorme alteração em 2002 com Correia de Campos que avança com a triagem de Manchester e com o sistema alert de M. Jorge Guimarães, M.D., Ph.D., que em 1999 funda o ALERT Life Sciences Computing, an healthcare software company.
O sistema não clínico, não médico, de triagem, destinava-se a não deixar na sala de espera o enfarte do miocárdio que se inscrevera em octagésimo lugar. Pulseiras coloridas construíam prioridades. É um sistema com méritos indiscutíveis, mas com erros grosseiros frequentes pois há inúmeros laranjas que não são urgentes e alguns verdes e azuis que estão à beira da morte.
Sempre fui crítico deste sistema e de outras soluções que não se baseiam numa logística anterior à porta de urgência. Sempre achei que podíamos fazer melhor e provei esse facto em 2003 no Hospital de Aveiro com uma triagem médica, com apoio de enfermeiros a fazerem enfermagem e não triagem. Um número de médicos adequados, bem treinados para a função clínica de avaliar os riscos e compreender as patologias mais frequentes, com um grupo de técnicos e de enfermeiros a construir eficiência nos meios complementares de diagnóstico e terapêuticas podíamos separar rapidamente o grave do menos importante. Note-se que não há doentes sem razão em ir à urgência, pois se uma pessoa normal não tem médico de família e lhe surge uma dor, ou sangra, ou se corta, ou tem febre duradoira, terá de recorrer à porta que está aberta. Ninguém gosta de se sentir doente e enfraquecido.
Quem fechou camas é portas e centros de atendimento que pense nisso.
Assim, podemos fazer diferente e melhor do que com a triagem de Manchester? Acredito que sim, organizando as urgências de outro modo. Podemos utilizar o critério colorido para tomar decisões? Parece-me um erro pois há cada vez mais erros no método das pulseiras. Há dias, um estoico jovem guineense foi triado de pulseira verde e acabou num bloco operatório com uma peritonite fecal, menos de duas horas depois de recorrer à urgência. Já vi borbulhas que gritam alto com pulseiras laranja. Todas as decisões devem basear-se numa reavaliação Está muita coisa mal desenhada nos sistemas de saúde. Menos gente, melhor paga, com valoração de mérito, com adequada formação para as patologias comuns e com experiencia são mais eficazes a reduzir a espera e o número de exames complementares. Uma relação directa com os serviços, criando consultas mais fáceis e acessíveis melhora tudo. Outro método útil é permitir que os doentes vão directos a consultas de especialidade, ou façam exames que esclareçam os receios. A saúde é um foco de medos e de ilusões. Há milhares de vendedores de esperança, e técnicos de magia no processo. A realidade tem televisões a vender programas de susto. Há indução de pânico e de vontade de antecipar o futuro – como se isso fosse possível.
O serviço nacional da doença não admite a saúde, está preparado e desenhado para as maleitas e o sofrimento.
A porta de urgência pode mudar, pode ser substituída, mas não pode continuar a ser a única forma de chegar a um clínico – hoje!
