Fizeram da palavra negada uma das mais belas formas de luta pela liberdade
17 de Abril de 1969. Foi há 55 anos, num dia como o de hoje, que um estudante foi mandatado para se levantar e pedir a palavra. A ditadura não deixou. Seguiram-se seis meses de manifestações, detenções, boicotes aos exames, numa luta em que eles, jovens, diferentes entre si, souberam ser fiéis a si próprios. Nada voltaria a ser como dantes. Como escreveu Osvaldo Castro: “a dignidade e a honra estudantis ficaram intocadas e os estudantes de Coimbra viriam a encontrar nos canos das espingardas do 25 de Abril as mesmas flores que haviam distribuído à população da cidade nos alvores da greve a exames…”
O antes
Ficar ali, naquele instante, é redutor. A crise académica de 1969 foi mais do que a palavra negada numa manhã de Abril. A história é dos dirigentes estudantis, mas também dos gestos anónimos e da bravura de tantos outros que, ao longo do tempo, preferiram ficar em silêncio. O 17 de Abril é de todos eles: os que hoje, 50 anos depois, regressam a uma juventude inquieta e, em alguns casos, precocemente perdida.
Na época, Coimbra era uma cidade cinzenta e conservadora. A mordaça da ditadura há muito que sufocava a liberdade de palavra e de opinião. O país sangrava numa guerra colonial que matava sem motivo. Mas os tempos seriam de mudança: o Maio de 68 em França, a guerra do Vietname, as guerras coloniais, a queda de Salazar, a Primavera Marcelista iriam contribuir para a imensa explosão estudantil que se dá em Portugal a partir do ano letivo de 68/69.
Anos antes, em 1965, Salazar tinha proibido as associações de estudantes, impondo comissões administrativas, constituídas por alunos de confiança do Governo. Foi assim até 1969, ano em que o Governo permitiu a realização de eleições para a associação, que acabariam por realizar-se a 12 de fevereiro. A lista de esquerda, promovida pelo Conselho das Repúblicas teria um resultado esmagador: nos sete lugares da direção-geral (DG) da AAC, a direita académica só logrou colocar um nome: o de Manuel Cavaleiro Brandão, que não chegou a tomar posse. A DG-AAC era presidida por Alberto Martins e integrava Osvaldo Castro, Fernanda da Bernarda, José Matos Pereira, José Gil Ferreira e Celso Cruzeiro. Décio de Sousa presidia à mesa da Assembleia Magna.
Foi esta direção que, apoiada pela Junta de Delegados de Ciências, começou a fazer diligências junto do reitor para que um representante dos estudantes pudesse discursar na inauguração do novo edifício das Matemáticas. A pretensão foi recusada.
A 16 de abril, a DG-AAC fez saber por comunicado que faria todos os esforços para poder intervir na inauguração e convocou os estudantes para comparecer no dia seguinte junto do edifício a inaugurar. A madrugada, para muitos, foi passada nos corredores da AAC a pintar cartazes. Horas depois, ainda antes das 11H00, na Praça D. Dinis, um milhar de estudantes aguardava as autoridades.
A palavra recusada
“Um dia perguntaram-me: Sabe o que é a coragem? É a arte de vencer o medo. Eu, naquele momento, estava cheio de medo”. Alberto Martins tinha 22 anos, celebrados, curiosamente, a 25 de Abril. Estava no 3. º ano de Direito e era presidente da direção-geral da AAC. A missão tinha-lhe sido confiada na noite anterior.
O anfiteatro – hoje chamado Sala 17 de Abril – estava apinhado de gente. Lá dentro, Alberto Martins preparava-se para insistir no seu direito de usar da palavra, enquanto no exterior as operações eram orientadas por Celso Cruzeiro, da DG.
Chegava, entretanto, a comitiva composta pelo Presidente da República Américo Tomás, Presidente da República, pelo ministro da Educação Nacional, José Hermano Saraiva (que muitos ainda conheceram como historiador e que, em vida, em várias entrevistas garantia que o 17 de Abril não tinha passado de uma lenda), o ministro da Justiça, o ministro das Obras Públicas e o reitor Andrade de Gouveia.
A sala estava cheia e o ânimo de Alberto Martins foi crescendo até que se levantou para pedir a palavra. Osvaldo Castro, citado no livro “Coimbra,1969”, de Celso Cruzeiro, descreveu aquele momento:
“Se há minutos inolvidáveis, Alberto Martins interpretou-os e eu presenciei-os segundo a segundo. No momento combinado, um jovem trajando o negro da capa e batina, rosto inundado pela palidez dos grandes momentos a contrastar com o negrume das suas barbas, ergueu-se como que em câmara lenta, levantou ligeiramente o braço direito, colocou a voz e disse em nome de gente de 20 anos, o que os títeres da ditadura nunca sonharam ouvir. Reclamou a palavra para os estudantes. Foi aí, nesse momento de coragem, que guardo em imagens seriadas, que começou a crise de Coimbra.”
Depois de Alberto Martins ter pedido a palavra, Américo Tomás diz: “Bem… Mas agora vai falar o Sr. ministro das Obras Públicas”. Troca umas palavras com José Hermano Saraiva e a comitiva sai da sala, apressadamente. Depois foi o que a História já contou e repetiu – os estudantes abafaram com aplausos a sessão.
Enquanto os dignitários do regime saíam, uma multidão de estudantes não calava a indignação com o incidente. Cá fora, gritavam “Vergonha! Palhaços!”,
Estavam todos longe de prever os acontecimentos subsequentes. Mas aos 20 anos – como diria um antigo estudante – “está-se pronto a romper”.
O depois
Às duas da manhã do dia seguinte, a PIDE prenderia Alberto Martins à saída da associação. Seria libertado pela manhã. Nessa tarde, já cerca de dois mil estudantes o esperavam para nova Assembleia Magna, na qual reivindicavam a autonomia universitária.
Dias depois, oito estudantes da AAC são suspensos e proibidos de “quaisquer atividades relacionadas com a Universidade, incluindo a frequência das aulas”. Seis pertencem à DG-AAC (Alberto Martins, Osvaldo Castro, Celso Cruzeiro, Fernanda Bernarda, José Gil e Matos Pereira). A medida atinge também Carlos Baptista, membro de Junta de Delegados de Ciências, e José Barros Moura, representante da Comissão Nacional dos Estudantes Portugueses. Os estudantes decretam “Luto Académico”, que assume forma de greve às aulas, transformando-as em momentos de debate sobre os problemas da “velha universidade”.
Em resposta, José Hermano Saraiva vai à televisão contar a sua versão dos factos. Diz que os estudantes não deixaram falar os oradores oficiais na cerimónia do dia 17, e justifica a suspensão dos oito alunos.
A contestação cresce: em Assembleia Magna, os estudantes decidem manter o luto académico. É cancelada a Queima das Fitas e o processo de luta estende-se a todos os setores onde se manifeste a expressão da vida universitária. A contestação ganha outro ânimo, inclusivamente com o apoio dos professores (Paulo Quintela, Teixeira Ribeiro, Orlando de Carvalho ou Vital Moreira) que já iam apoiando a causa dos alunos.
O Estado-Novo reage: no dia 6 de maio, a Universidade de Coimbra é encerrada, antes de completar o ano letivo normal.
Greve aos exames
Com a universidade encerrada, os estudantes decretam nova forma de luta: a 28 de maio, nos jardins da AAC realiza-se a maior assembleia magna de que há memória, onde é aprovada greve aos exames.
Em início de junho, Coimbra parece uma cidade ocupada militarmente por forças da GNR e pela PSP: jipes com arame farpado, GNR a cavalo, cães-polícias, pelotões de choque contribuem para o ambiente repressivo. Os estudantes organizam piquetes de greve, espalham sebo nas calçadas para os cavalos escorregarem, armadilham as ruas com pregos para furar os pneus dos jipes da GNR. Mas há também formas de luta nunca vistas: plenários, distribuições de flores à polícia e uma largada de balões com palavras de ordem.
A adesão à greve rondou os 87 por cento, mas na sequência do boicote, muitos estudantes seriam presos e libertados nos meses seguintes.
Já no início do ano letivo seguinte, 49 destacados ativistas estudantis são incorporados nas fileiras do exército. No momento da despedida, na Estação de Coimbra-B, gritam-se palavras de ordem contra a guerra colonial. É a primeira vez que a guerra é, explicitamente, motivo do protesto dos estudantes.Carlos Marques da Silva, antigo aluno de Medicina, lembra esse episódio na página do evento “Orgulho do 17 de Abril”: “(…) realizou-se uma concentração de dezenas de estudantes na Estação Velha não previamente anunciada (aparentemente ignorada pela polícia) que prosseguiu, depois da partida do comboio, numa manifestação pela avenida Fernão de Magalhães até à rotunda da Auto-Industrial, com palavras de ordem contra a guerra colonial. Eu participei nela. Era domingo à tarde, havia pouco trânsito nas ruas, nuvens escuras no céu e tristeza no coração”.
Depois da crise de 69, o ministro da Educação e o reitor da Universidade de Coimbra acabariam por se demitir.
A 11 de abril de 1970, tudo parece terminar quando uma comissão de estudantes vai a Lisboa pedir benevolência a Américo Tomás, na presença do ministro da justiça, com a intervenção do novo reitor, Gouveia Monteiro, e de Teixeira Ribeiro, numa manobra que contou com a ajuda de Sebastião Cruz e Mota Pinto.
Os ânimos acalmaram. Mas estava iniciada uma caminhada que nenhuma força política ou militar conseguiria travar até à Revolução dos Cravos.
Académica perdeu com o Benfica mas os estudantes ganharam
A tensão era grande no Estádio Nacional, na tarde de 22 de junho de 1969. A equipa da AAC tinha vencido o Sporting, em Coimbra, e chegava à Final da Taça de Portugal, no Jamor. Os jogadores da Briosa entraram em campo com a capa negra caída sobre os ombros e abotoada, em sinal de luto académico. Nas imediações do estádio, 35 mil comunicados foram distribuídos aos espetadores. Pelas bancadas, milhares de estudantes universitários ocultavam tarjas com palavras de ordem, que seriam levantadas após o intervalo. O encontro não foi transmitido na RTP e, pela primeira vez, o presidente Américo Tomás não esteve presente para entregar a Taça.
A equipa da Luz venceria por 2-1 com um golo marcado por Eusébio já no prolongamento.
A Académica perdeu essa final da Taça de Portugal. Mas o que estava em jogo era muito mais do que isso.
Polícia deixou Mário do Óasis com “sete costelas partidas”
“Mário do Oásis” (já falecido) era o proprietário do emblemático estabelecimento do Largo da Sé Velha, muito frequentado por estudantes, designadamente das repúblicas vizinhas.
Na noite de 17 de Abril de 1969, já Mário tinha fechado o café, quando um grupo de estudantes lhe bateu à porta e lhe disse que o presidente da AAC tinha sido detido pela PIDE. Ele não hesitou em os acompanhar até junto das instalações da polícia política e juntar-se aos muitos alunos que, ali, exigiam a libertação de Alberto Martins.
Mas as forças policiais “carregaram” sobre os manifestantes e partiram “sete costelas e racharam a cabeça ao senhor Mário, que levou 17 pontos” (também foi mordido por cães da polícia), recordou à Lusa Arsénio Silva, então empregado no Oásis (hoje proprietário do café) .
Opinião de Maria Manuela Cruzeiro
A lição do 17 de Abril
Não é, ao contrário de que muitas vezes pensamos e desejamos, uma lição de história, sabendo nós que, se alguma lição há a tirar da história, é que são inúteis as lições que ela nos dá. Mas existe algo a montante e a juzante da própria história e que, de alguma forma, a excede e a transcende: A memória. Não uma memória passadista ou nostálgica, e muito menos comemorativa. Antes uma memória que, não deixando de ser próxima e calorosa, ou justamente porque o é, não se deixa cristalizar no tempo frio do calendário, nem aprisionar pela lógica devoradora da comemoração. É que todos sabemos que só se comemora o presente. Ou melhor: o que do passado interessa ao presente.
Por isso, os grevistas de 1969, na sua esmagadora maioria, sentem que o figurino do ritual comemorativo, baseado em valores como o consenso ou mesmo a unanimidade, sacrifica a riqueza e a variedade de uma experiência única na história da contestação estudantil. E impõe uma versão hegemónica e fixista daquilo que foi todo o seu contrário: um movimento colectivo, criativo e dinâmico, plural na sua orientação, radical nos seus fundamentos e objectivos. Tão radical que a única celebração que importa é a que recusa tanto o terminus do processo, como as suas soluções possibilistas. Proclamando, ao contrário, com Derrida, que um acontecimento (im)possível é justamente o que constrói as suas próprias possibilidades em ruptura com o que existe. Foi o que fizemos, há 50 anos, (mesmo sem conhecer Derrida!) na multiplicidade das lutas com que escrevemos a nossa pequena epopeia.
Não procurem na história porque, como adverte Eduardo Lourenço, “ela chega sempre tarde para dar sentido à vida dos homens. Só a pode recapitular”. Procurem nesse raro dom do ser humano de se antecipar à própria história e a vergar ao peso do sonho e da utopia. Os que experimentaram, maravilhados e incrédulos, esse imenso poder e estiveram à altura desse momento único das suas vidas, se não sucumbiram à terrível arma do branqueamento ou da amnésia, selaram um compromisso que Derrida chama “dever de memória”.
Dever de memória é, afinal, o estreito rio que corre de 1969 até 2019… Os que preferem esse pequeno fio de água, e não as vagas alterosas dos surfistas da hora presente, sem se arvorarem em santos ou heróis, orgulham-se tão somente de não fugirem ao encontro com a história. Partilham por isso muitas memórias que não hipotecam nem manipulam de acordo com tempos e modos em que se não reconhecem. Partilham também uma dificuldade: a de viver, ou tentar viver, de maneira a fazer do mundo um lugar menos escandaloso. Mas ainda não estão cansados da guerra iniciada há 50 anos, o que os faz ainda hoje olharem–se nos olhos sem corar. E com alegria!
(Investigadora no CES e estudante em 1969)











