Erasmus, Harvard e a loucura do pensar
Professor de Estudos dos Media na ESEC
Entre Erasmo, Harvard e a loucura do pensar, há uma viagem que atravessa séculos e fronteiras. Erasmo de Roterdão, autor do célebre Elogio da Loucura e pensador do século XVI, acreditava que o conhecimento floresce quando circula livremente e que pensar é, acima de tudo, uma forma de viajar. Esta “loucura do pensar” – a ousadia de perguntar, de abrir-se ao diferente e de desafiar certezas – é um dos alvos do populismo contemporâneo.
Erasmo atravessou meia Europa com livros debaixo do braço e ideias na cabeça. Entre Paris, Lovaina, Basileia ou Cambridge, defendeu o diálogo, o saber livre e o valor da tolerância. O pensamento, dizia, não se cultiva em trincheiras, mas em movimento, no contacto com a diferença. Séculos depois, o seu nome viria a inspirar o programa Erasmus, que permitiu a milhares de jovens estudar fora do seu país, mergulhar noutras culturas e expandir o horizonte intelectual. Ir “em Erasmus” é, ainda hoje, uma forma de aprender a ser europeu – por vivência, não por decreto. A Europa do programa Erasmus traduz uma ideia forte: a de que estudar é também habitar o mundo com liberdade e curiosidade.
Hoje, esta ideia está a ser atacada. Em vários contextos, o populismo procura reconfigurar a relação entre educação e cidadania, e restringir a circulação do saber, da dúvida e da diferença. Nos Estados Unidos, Trump escolheu Harvard como símbolo e alvo: cancelou apoios no valor de 2,6 mil milhões de dólares, criticou a presença de estudantes estrangeiros e acusou a universidade de falta de patriotismo. O motivo real parece claro: Harvard representa a ideia de ensino aberto, internacional e resistente à instrumentalização política. E isso é intolerável, para quem quer controlar o discurso público.
Num momento em que os estudantes estrangeiros representam já 27% dos alunos, Trump declarou que deveriam ser reduzidos para 15%, e afirmou que só deveriam permanecer aqueles que “amam o nosso país”. Na sua plataforma Truth Social, escreveu ainda: “Porque é que Harvard não diz que quase 31% dos seus alunos são de países estrangeiros, e, no entanto, estes países, alguns nada amigos dos Estados Unidos, não pagam pela educação dos seus alunos?”
Como qualquer bom discurso populista, também este mistura meias-verdades com suspeitas difusas e com um apelo forte ao orgulho nacional. Ignora que cerca de 65% dos estudantes internacionais pagam as propinas do próprio bolso – 80% nas licenciaturas – e que a maioria dos estudantes norte-americanos beneficia de algum tipo de apoio. A manipulação dos factos alimenta a narrativa de que as universidades são elitistas, antipatrióticas e parasitam o erário público. É assim que se promove a desinformação e se ataca um dos últimos bastiões do pensamento livre: a Universidade.
Este episódio é sintoma de um movimento mais vasto. Uma das ambições do populismo – tal como advertiu Pierre Rosanvallon – é conquistar os aparelhos de interpretação da realidade. E a Universidade, com todas as suas imperfeições, continua a ser um desses raros lugares – um espaço onde o mundo não é reduzido a clichés e onde o futuro se desenha com perguntas.
Defender o espírito de Erasmo é, hoje, mais urgente do que nunca. Significa abraçar a loucura do pensar – a coragem de questionar, de viajar pelas ideias sem medo, mesmo quando isso desconcerta ou quando ameaça quem prefere certezas fáceis. Porque quem estuda, viaja: por ideias, por culturas, por mundos possíveis. E quem viaja é livre.
