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Opinião – Velas de cera: ciência, inovação e investimento

15 de setembro de 2025 às 10 h56

O apagão de há uns meses evidenciou a nossa imensa dependência da eletricidade. Foi-se buscar velas, fogões a gás e rádios a pilhas, esperando para que as vitualhas aguentassem nos congeladores. Viveram-se momentos de apreensão em hospitais, e chegou a haver, infelizmente, vítimas entre os dependentes de máquinas de suporte respiratório.
Prestou-se então indireta homenagem aos pioneiros do estudo da eletricidade, em particular ao grande Michael Faraday. Nos inícios do século XIX, este tema exótico era estudado apenas pela vontade de conhecer mais e melhor o mundo natural. Faraday terá replicado certeiramente ao ministro das Finanças Gladstone, que lhe perguntava para que servia a eletricidade: “Senhor, há grande possibilidade de poder vir a taxá-la em breve!” Menos politicamente corretos terão sido os membros da equipa de William Thomson que identificaram em 1896 as diminutas partículas componentes da eletricidade, que por isso designaram eletrões. No brinde à descoberta, ter-se-á formulado o espirituoso voto: “e que nunca sirvam para nada!” O bom prof. Thomson não deixaria de ficar orgulhoso com a revolução na física e na tecnologia assente nos “inúteis” eletrões (basta lembrar uma importante subdisciplina conhecida como eletrónica). O chiste pretendia talvez sublinhar que a ciência que transforma verdadeiramente o mundo é como um carvalho de boa cepa, plantado para as gerações seguintes. O eucaliptal científico, com resultados imediatos e alguns tostões garantidos, compromete toda a floresta.
Apesar dos manifestos e garantidos frutos da investigação fundamental (no desenvolvimento económico e muito para além disso), o seu caráter dilatado no tempo colide sistematicamente com o imediatismo e falta de visão de todos os Gladstones chamados a pronunciar-se sobre os investimentos coletivos. Focados nas urgências do “agora”, dificilmente conseguem encarar com a profundidade necessária investimentos de longo prazo, ainda que de retorno garantido (mas desconhecido). Também os contemporâneos de Faraday, afligidos pelas imensas necessidades sociais da Revolução Industrial então em curso, exigiam seguramente velas mais económicas, mais duradouras e mais sustentáveis que pudessem iluminar todos os lares. Ou apontavam a urgência no desenvolvimento de soluções tecnológicas com futuro assegurado, como a iluminação a gás. Para quê, perguntavam, gastar recursos humanos e financeiros nessas maluquices inúteis da eletricidade?
Em Portugal, onde a ciência e a indústria se desenvolveram tarde, e onde a necessária educação científica da população (incluindo dos dirigentes) só nos últimos 50 anos começou a dar passos seguros, esta miopia tem-se pago caro a todos os níveis. Continuamos ainda assim a dar-nos ao luxo de ter responsáveis políticos, como o atual Ministro da Ciência (!), que transmitem aos futuros dirigentes partidários pérolas como a seguinte: “os cientistas têm de perceber que têm a obrigação de devolver à sociedade o investimento que é feito neles”. Num país onde o investimento em ciência se encontra em 1.69% do PIB (dados de 2023, bem longe da almejada meta europeia de 3%, e menos de metade dos 3.6% investidos pela Suécia), seria talvez melhor transmitir aos jovens interessados na gestão pública, e a toda a sociedade, que têm obrigação de perceber que o investimento em ciência é como um PPR contratado com as melhores instituições financeiras: sólido, rentável e para levantar daqui a muitos anos.

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