Opinião: A desfiguração do mundo
Tudo o que é sólido dissolve-se no ar, prevenia Karl Marx no Manifesto Comunista. A premonição, depois promovida a científica lei do devir histórico, tinha como horizonte a sociedade e as instituições do capitalismo industrial.
Uma centúria depois, o fim da história previsto pelo materialismo dialético foi deposto e substituído por um outro, também revestido de vestes de cientificidade, agora de natureza económica, postulador das irreversibilidades da globalização e da férrea lei da mão invisível.
Este novo fim da história, além das irreversibilidades económicas, afirmava axiomas de natureza política, como o da universalização dos direitos do homem e do cidadão e o do triunfo final das democracias representativas.
Capítulo importante desta fábula de encantar era reservado ao novo direito internacional e humanitário do pós guerra, e à i sua instituição símbolo, a ONU, garantes se não de uma paz eterna, pelo menos de guerras limpas e civilizadas.
Sabemos o ponto onde nos encontramos.
As ditaduras, o mais das vezes travestidas de “democracias musculadas”, dominam o mundo. Algumas delas vêm deslizando, sem espanto, trauma ou indignação, para formas clássicas de totalitarismo. Novos Estados totais, no entanto, com um potencial de violência e de controlo sem paralelo na história, pelo uso em massa dos hodiernos instrumentos de vigilância digital.
O iluminismo proclamou o desencantamento do mundo como um dos vetores chave do progresso humano e do triunfo da razão.
Estava errado. Abolida a tradição, colocada na gaveta a ética e a religião, ficaram sós no terreno as forças brutais da Razão de Estado e da Razão de Mercado.
No lugar da morte de Deus assistimos, todos os dias à morte do Homem.
E onde há morte do Homem há a desfiguração do mundo.

“O Iluminismo proclamou o desencantamento do mundo como um dos vetores chave do progresso humano e do triunfo da Razão.”
Sim, o conhecimento do Mundo só pode ser alcançado através da Razão, auxiliada da Tecnologia. Quanto à Religião, invenção humana como tentativa vã de explicar o Mundo, a História já demonstrou que sempre que sai da esfera pessoal e intransmissível (onde tem pode ter naturalmente um papel psicológico importante), apenas serve para acentuar discórdias e escravizar os povos.