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Não são imigrantes, senhor deputado, são crianças

12 de julho de 2025 às 12 h10
Martha Mendes - gestora de comunicação

Enquanto se debatia há uns dias, no Parlamento, as alterações à lei da imigração e da nacionalidade, o líder do Chega leu uma lista com nomes de crianças, alegadamente estrangeiras, que frequentam um jardim-de-infância de uma escola pública portuguesa. Antes do debate, a deputada Rita Matias leu a mesma lista, num vídeo que partilhou nas suas redes sociais, indo mais longe e dizendo também os apelidos das crianças, para tentar demonstrar que os imigrantes têm prioridade no acesso às vagas no pré-escolar. A situação – que ultrapassa largamente o que é tolerável em Democracia – mostra bem como a extrema-Direita já deixou, há muito, de ter limites no que toca ao populismo e à sede de poder: vale tudo, até instrumentalizar crianças. A premissa de que os filhos de imigrantes têm prioridade no acesso a escolas públicas é fácil de desmentir: o artigo 10º do Despacho Normativo n.º 10-B/2021, de 14 de abril, determina as regras de prioridade na matrícula ou renovação de matrícula na educação pré-escolar e nenhuma se prende com a nacionalidade dos pais ou das crianças. Mas a questão não é essa.
Há uns meses, fui ao cinema ver o filme “Uma vida singular”. A obra baseia-se na história verídica do empresário Nicholas George Winton, um britânico proveniente de uma família judia, que vendo que as tropas de Adolf Hitler começavam a ocupar a região norte da então Checoslováquia, e milhares de famílias judias fugiam em direção a Praga, coordenou uma operação de salvamento que conseguiu tirar quase 700 crianças judias da região e alojá-las, em lares adotivos, na Inglaterra. Graças a Winton, estas crianças foram poupadas aos campos de concentração nazis, onde milhões de pessoas – incluindo crianças – acabariam por perder a vida de forma hedionda. A história deste herói permaneceu na sombra, até ao final dos anos oitenta, quando a mulher de Nicholas partilhou com um investigador do Holocausto listas com centenas de nomes das crianças: os nomes daqueles que o seu marido tinha salvado. Listas de bondade – que também as há.
O filme é tocante. Recorda-nos que, mesmo quando a humanidade está transformada num farrapo, há sempre um fio de amor ao próximo e generosidade que resiste. Mas há uma cena dilacerante, a que mais me marcou, e que me veio à memória amiúde, por estes dias. A dada altura, um dos comboios que transportavam crianças é parado e soldados nazis sobem às carruagens para inspecioná-las. Trémulo, o responsável pelo transporte entrega a um soldado alguns documentos falsos, explicando-lhe que está a levar aquelas crianças para Inglaterra. O soldado olha brevemente para os papéis e depois para as crianças – assustadas, frágeis, afastadas da família, de casa, da escola, dos amigos – e pergunta ao responsável: para que é que os ingleses querem estes judeus todos?
Uma das formas mais eficazes de integrar estrangeiros – talvez a mais eficaz – é através dos seus filhos. Integrar estas crianças na escola pública, ensiná-las a falar e a escrever a nossa língua, contar-lhes a nossa história, permitir que elas chamem a si a nossa cultura, acrescentando-a à das suas famílias, é acima de tudo um dever democrático e humanitário mas é, também, uma questão de inteligência, de pensar o país a longo prazo. Os meus avós portugueses, emigrados nos EUA há anos, passaram a ser americanos quando os filhos começaram a chegar do liceu e a falar inglês entre si, a falar-lhes da política do país e a trazer amigos americanos para casa, para se sentarem à mesa com eles. E, depois, mais tarde, a dar nomes ingleses aos netos, que eles tiveram que aprender a pronunciar, como forma de homenagear um país que os acolheu como casa – nomes que, duas gerações depois, se confundiam nas listas escolares com os locais. A integração cultural num país estrangeiro é talvez um dos raros fenómenos em que a transmissão funciona melhor em sentido inverso – dos filhos para os pais – e, para além de desumano, é estúpido não perceber isto. O país dos meus filhos é meu também. Mas ser estúpido é menos mau do que ser desumano, por isso o argumento maior tem que ser o da humanidade: os nomes naquelas listas são nomes de crianças, não são nomes de imigrantes. Os passageiros naquele comboio não eram judeus, eram crianças. Para que é que os queremos – na escola, a partilhar o recreio com os nossos filhos? Para sermos melhores. Não são imigrantes, senhor deputado. São crianças.

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