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Opinião: Cuidadores

03 de maio de 2025 às 10 h26

Cuidar de alguém da família é uma tarefa sem horário. Por vezes é uma obra de caridade, mas há quem cuide com intenções menos nobres. Cuidar de quem está só, sem família, pode ser uma forma de enriquecer. Mas cuidar de um familiar é uma tarefa tramada, se está incapacitado, se não consegue cumprir com as tarefas básicas de vida: comer, urinar, levantar-se, caminhar, lavar-se. Nesta realidade, como em todas as outras, há cenários múltiplos e complexos. Já vi de tudo. A empregada que se apoderou dos bens da patroa. A prima que tomou posse das contas da tia. O filho que dilapidou a mãe e deixou o trabalho às irmãs. E testemunho com frequência a abnegação, a dedicação plena, a entrega da vida ao menos válido. Vou falar dos que admiro e respeito muito.
Os cuidadores informais deviam ter salários dignos.Os cuidadores informais deviam ver obras nas suas casas feitas pela segurança social. Os cuidadores informais deviam substituir, na maioria do possível, os cuidados continuados, os lares, os lugares de agrupar quem nunca o pediu. Deviam ter apoios técnicos e ensino. Deviam ver certificado como conhecimento técnico e experiência, o seu tempo dedicado aos familiares. A realidade dos cuidadores informais é uma das tristezas da opção estatista na saúde. Se o cuidador tivesse ensino e pagamento, adquiriria a sabedoria e ganharia um espaço de trabalho e uma profissão. Afinal, depois de cuidar de alguém, durante décadas, não se está preparado para uma outra tarefa de imediato.
A opção dos negócios conduziu à criação dos cuidados continuados, porque esse é um modo de distribuir benesses e prebendas pelos apaniguados. Foi através da destruição dos atendimentos permanentes que surgiu a oportunidade de oferecer a Misericórdias amigas, a empresários camaradas, uma série de estruturas para cuidar de idosos e para reabilitar os pós problemas. Como tudo em Portugal, fez-se com a logística impreparada e começaram por dar poucas camas e muitas exigências, chegando a quase falir os amigos que acreditavam no poder. Lá se foi edificando entre tempestades e como cogumelos vieram substituir a visão das famílias. Agora, todos querem libertar-se do problema: sem qualquer apoio cuidar de alguém. A prisão da miséria! Não é falta de amor, também a haverá, mas é a realidade a esmagar a humanidade. As famílias, mesmo que o desejassem, precisavam de uma estrutura para receber a dificuldade. Casas de banhos apropriadas. Mobilidade em camas ou cadeiras. Preparação para exercícios de reabilitação. Tudo se ensina, vigia e pode construir e pagar. Mas o Estado em vez da rede domiciliária escolheu a colmeia. Aqui está um ponto que carece de viragem. A defesa da persistência dos cidadãos, nos seus lugares de felicidade, e com as suas famílias estruturadas e apoiadas, impedindo que cuidar seja um fardo ou uma tragédia.

1 Comentário

  1. Isa Martins diz:

    Comentário muito bom.
    É um tema com que todos nos deveriamos preocupar e que deveria ser debatido pelos políticos em campanha eleitoral.
    É urgente mudar e fazer mais nesta área.

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