Opinião: “O Carma é tramado”
DR
Anda uma figura sindical dos guardas prisionais a dizer que precisa controlar as cartas dos presidiários, que quer abrir a correspondência institucional, precisa mais investimento carcereiro e menos na reinserção, ou inclusão, e vai a PJ e prende sete colegas e mais uns funcionários do Estado que andavam a ganhar dinheiro com o banditismo. Um grupo de guardas aproveitava a sua posição privilegiada e cometia a imprevidência de levar droga às prisões. Não andasse o dirigente a dar conferências sobre o tema e não havia esta distopia, este carma ridículo.
Também José Sócrates em 2007 inicia a aterragem do consumo excessivo por imposição de uma europa que estava farta de atirar dinheiro para os consumidores do Sul. De facto, havia um sem número de maneiras de aldrabar a seriedade do Norte, inventando barcos a remos onde devia haver frotas de pesca, fazendo ruas onde se projectaram autoestradas, construindo capelas onde supostamente iam nascer catedrais, desenhando piscinas olímpicas em terras de trezentos habitantes idosos. A tal europa, cansada de tanto desprezo, veio investigar (o que nunca devia ter deixado de fazer) e descobriu que cegos conduziam táxis, que pernetas corriam meias maratonas, que tipos com reformas por doença ganhavam dinheiro em restaurantes, cabeleireiros e outras alcavalas. Era “à tripa-forra”, era fartar vilanagem, e depois veio a indignação do povo ladrão:
– Quem são estes que nos pedem contas?
– Quem ousou entrar nas minhas cavernas que não desvendo, meus tectos negros do fim do mundo?
E toca de encurtar nas prebendas e comendas e favores. Portugal inicia a descida vertical dos gastos e começa a baixar salários, a reduzir alcavalas, a enfrentar sindicatos e poderes profissionais. É então que se unificam a direcção de reinserção com a direcção dos presídios. Duas direcções gerais completamente distintas, ficam numa só. Uma medida distópica que mistura tratar com punir, que confunde limitação vigiada da liberdade com trabalho de inclusão. Quem fez isto e reduziu o trabalho nos presídios, reduziu o orçamento para a educação e a alimentação e o desporto dentro das cadeias veio a ficar preso durante um ano. O carma atacava de novo.
A realidade da gestão acéfala, da distribuição por favores, tem sempre este problema de ir contra o bom senso. Um dia a Europa perceberá como temos fundações de mais, como temos entidades reguladoras em excesso, como temos instituições que se sobrepõem nas directivas entre elas. Tudo serve para construir empregos de amigos, distribuir salários principescos e acalmar os acólitos.
Mandar é um acto nobre, um lugar que obriga ao exercício de coerência, balanço, avaliação, representação, urbanidade, rigor de contas e de determinações. Por isso nem todos sabem mandar. A maioria dos nossos deputados podiam ser vigilantes porque os seus lugares permitem porta aberta de surpresa a todas as instituições. E eles vão lá? Permite que entrem num presídio, num hospital, num serviço público. E eles vão lá? Um primeiro-ministro pode abrir uma fundação à hora que bem entender, surpreender todos os seus subsidiados, exigir contas a uma Entidade, ou Direcção Geral, ou Associação Pública. E eles vão? e eles pedem? e eles exigem?
Pois não! O carma depois aparece e é tramado.
