Opinião: Modelar
A mentira televisiva comporta vários tipos de acção. Se te convidarem para falar sobre a crise climática e entenderes de modo diferente dos textos tidos por irrefutáveis, serás truncado, reduzido o apontamento a uns detalhes, e se possível os menos favoráveis. Apareces com borbulhas, a coçar o nariz e o angulo não vai ser deslumbrante. Se fizerem um debate sobre a mobilidade eléctrica e a opção por carros com baterias, a tua presença vai ser por apontamentos, rigorosamente selecionados, jamais em directo, e nunca ao lado do discurso oficial. A logística da destruição de carácter não é nova. A organização dos sistemas jornalísticos para conduzir a informação ao seu lugar é um pouco como nas touradas. A capa indica ao touro onde cornear. O movimento do toureiro condiciona a visão do animal. No fundo a ideia é tourear a nossa cultura, balizar as nossas escolhas e impedir a visão do processo de modo mais inteiro. O povo que lê a falida revista visão, ou vê a SIC, sabe que os artigos serão contra Milei na Argentina, mesmo que a inflação tenha descido 48 %, a taxa de emprego esteja a melhorar, o PIB tenha crescido, o crime tenha reduzido. Os mesmos explicarão com interjeições e impropérios a vitória de Trump, induzirão infâmia em Bukelele de El Salvador, e sobretudo nunca nos mostrarão um discurso inteiro dos protagonistas. Nunca será deixado ao critério da escolha a hipótese de conhecer Milei a explicar as suas vitórias.
A RTP é um assalariado desta realidade destrutiva de carácter, e manipuladora de factos. Nunca nos dá uma entrevista com Bolsonaro, ou com Giorgia Meloni. Por nunca ouviremos os defensores do nuclear, jamais conheceremos Sousa Lara de modo distinto do seu momento anti-saramago. Alguns nunca podem passar por inteiro ou comentar de modo livre e aberto. Joana Amaral Dias, Miguel Morgado ou João Miguel Tavares são excepções muito interessantes, vozes dissonantes relativas. Miguel Sousa Tavares e António Barreto são cidadãos livres, pensando pelas suas cabeças, sem espaço para serventia do poder. Não precisamos estar sempre de acordo, mas gente livre é admirável. Gente descomprometida com o lugar, com a fortuna, é interessante.
Sejamos honestíssimos, o que se está a passar em el Salvador, ou a experiência capitalista da Argentina, ou as mudanças em Italia, ou a ousadia da nova líder Mexicana, devem ser estudadas, e se possível dadas a conhecer pelos próprios, antes dos comentadores e facciosos tentarem explicar aquilo que nunca nos foi mostrado, de modo impoluto.
O enviesamento da informação condiciona a forma como observamos a realidade. Trump ganha nos votos hispânicos, nas mulheres, encurta distância no voto negro. Tudo isto era conhecido e foi negado aos portugueses. O único que importa é destruir a direita, sem olhar a meios ou fins. A direita, por seu lado, readaptou os seus discursos, moderou nos seus intentos, apagou todas as radicalidades de um tempo triste e criminal. Tem agora a demagogia na língua. Sabemos o que querem, mas o que dizem pode ser a noite e o dia, entrecruzar o bom e o muito tonto, dependendo da audiência.
Vamos ver agora as eleições na Alemanha, a eleição na Madeira, o que aí vem para França. Redefinem-se discursos e tenta-se perceber, antecipar o que aí vem depois da vitória de Donald Trump.
