Opinião: Inteligência Artificial Nuclear
A primeira grande disrupção provocada pela Inteligência Artificial (IA) não é tecnológica, é energética. A crescente popularidade do ChatGPT evidencia que são necessários centros de dados imensamente maiores e mais caros dos que existem actualmente. Cada consulta com recurso à IA exige o processamento de enormes quantidades de dados, geridos nos tais centros que consomem muito mais energia, desde logo porque são maiores, mas não só: o “consumo” de energia é cerca de 300 vezes superior ao necessário para uma simples pesquisa na internet.
Não foi por isso de estranhar que a Microsoft tenha comprado 20 anos de energia a uma empresa que nos Estados Unidos a produz, a Constellation. Mas não uma energia qualquer! A Microsoft comprou energia nuclear isenta de carbono para alimentar alguns dos seus centros de dados de IA, o que tanto é visto como um passo de gigante no sentido da descarbonização, como levanta receios associados à reactivação de centrais nucleares.
Para além da Microsoft, outros gigantes – Amazon, Google e Meta (Facebook) – andam a alugar centros de dados, pois os que possuem são insuficientes para o que aí vem. Irão desembolsar durantes os próximos 4 ou 5 anos, no mínimo, 100 mil milhões de dólares. Um custo, ou investimento, para obter o máximo de energia possível, o mais rapidamente possível, com a menor pegada de carbono possível. Para tanto, a energia de eleição é a nuclear, mais fiável do que a solar ou a eólica e menos poluente do que os combustíveis fósseis.
O reactor “da moda” (ainda só existem 3 a funcionar, mas quase 100 estão previstos para os próximos anos) são os SMR (Small Modular Reactor), pois podem ser construídos em fábricas e montados em locais que fiquem perto da rede eléctrica. A sua capacidade energética é obviamente inferior à de uma central nuclear tradicional, mas têm a vantagem de serem considerados mais seguros, mais acessíveis, mais “fáceis” de construir, de serem transportados e, à medida que a procura de energia aumenta, podem ser construídas e instaladas mais unidades onde são necessárias.
Fica “no ar” a possibilidade de se chegar à fusão nuclear: produzir energia ilimitada, segura, limpa e a pedido. Até lá, e se lá chegarmos, a potencial procura de centenas de novos SMR para alimentar centros de dados preparados para a IA, provocará o aumento do preço do urânio (desde que não abram novas minas). De acordo com a Associação Nuclear Mundial, a procura de urânio para reactores nucleares deverá quase duplicar até 2040, à medida que os governos aumentam a capacidade de produção de energia nuclear para cumprir os objectivos de emissões zero de carbono.
